EPISODE 3 – DOOMED BY THE DOOM

Além de um nome, ele também não tinha medo, mas era inteligente o bastante para compreender o fato de que isso não lhe conferia, necessariamente, uma vantagem, por isso, ao invés de se deixar levar pela sapiência intrínseca das emoções humanas, era forçado, quase sempre, a ocupar o seu intelecto com essas coisas que, para um ser humano normal, seriam tão naturais quanto a chuva e o acasalamento dos bonobos. A solução que encontrou para sua deficiência cognitiva, por assim dizer, foi desconfiar de tudo e de todos, passando a julgar toda sorte de esquisitices como uma ameaça em potencial. Foi por isso e tão somente por isso que se desviou de seu caminho para ir de encontro à Bruxa de Canthir, uma velha sacerdotisa do culto de Guiana, a ddesa usa dos mortos, que, segundo dizem, vivia n’algum lugar de Canthir já faziam mais de trezentos anos, tempo este que, ao menos de acordo com os poucos que a conheceram, foi muito bem aproveitado em bebedeiras e comilâncias históricas, das quais os envolvidos lembram-se carinhosamente bem.

A bruxa era sábia, talvez o ser mais sábio que havia no mundo no momento, e ela sem dúvida seria capaz de explicar algo do tipo, e ele precisava saber do que se tratava o quanto antes, pois sentia que, mais cedo ou mais tarde, que quer que tenha lhe surpreendido no mato retornaria para ameaçá-lo.

Seja como for, era uma decisão seríssima. De acordo com seus cálculos, lhe faltavam, aproximadamente, vinte horas para chegar Caminet, mudar de curso para Canthir lhe faria dar meia volta, quase que refazer todo o caminho que percorreu até ali e caminhar por mais dois dias, atravessando o que, segundo soube, tornaram-se ruínas após o selvagem ataque da Legião Fantasma, que agora acampava, preparando-se para continuar a avançar para dentro do território brudahviano. Tinha até alguma curiosidade em saber como andavam as coisas por lá (será que seu vilarejo já havia caído? Com excessão dele próprio, não haviam muitos homens capazes de oferecer resistência por lá, era um pequeno vilarejo formado, basicamente, por camponeses já velhos e cansados, barangas insuportáveis e meia dúzia de moleques analfabetos). Não importava, aquilo precisava ser resolvido, mas não estava afim de andar mais. Aproveitou-se do dinheiro que tinha e, ao contrário do que lhe era costumeiro, acho que seria conveniente alugar uma caravana para levar-lhe á Canthir. Infelizmente não encontrou ninguém que estivesse disposto a se aventurar por entre as tropas Talmurianas, além do mais, já se sabia que, além da Legião Fantasma, a vanguarda dos temidos Cavaleiros dos Lírios Vermelhos também se juntaram à campanha e os exércitos do Rei não foram capazes de deter seu avanço de forma eficiente desde que os conflitos se iniciaram e, da maneira como as coisas andavam, provavelmente não o seriam num futuro tão próximo.

De repente, começou a considerar se não havia se tornado um agente Talmuriano, se a sua jornada regicida não era, nada mais, nada menos, do que um plano para pôr um fim ao conflito e entregar a Brudávia aos Lobos de Talmúria. Ainda que estivesse enganado, não conseguia pensar n’outro desfecho caso sua jornada se cumprisse da forma como fora planejada por quem quer que fosse o sujeito que se apresentou como sendo seu pai.

Decidiu descansar numa pequena estalagem com a qual veio a cruzar pouco antes do anoitecer. Achava-se mais vulnerável naquele lugar do que escondido n’alguma caverna sob o olhar dos carniçais, mas era necessário que descançasse apropriadamente, pois já estava a caminhar faziam dias e mais dias. O lugar não era de todo mal, mas não se pode dizer que carregava consigo nenhum ar de requinte; a maioria dos clientes pareciam ser ladrões, mercenários, pinguços arruinados, proxenetas mal sucedidos e viciados em folha de alburgia. Era, portanto, um malzoléu de rejeitados e cheirava como tal. Ao entrar pela porta de entrada, logo chamou a atenção. Era até comum que sujeitos mascarados se metessem ali, mas nenhum dava a impressão de estar a esconder algo que pudesse por em risco quem quer que se aproximasse. Ele já estava acostumado com o tipo de olhar que recebera, pois a sua feiura era tamanha, que transpirava para além do que quer que usasse para cobrir o rosto, e colocava em alerta qualquer um que estivesse por perto, mesmo que o indivíduo sequer houvesse percebido que estava próximo a alguém.

“Que tipo agourento!”, gritou um proxeneta do outro lado do salão. “Foste amaldiçoado ou coisa do tipo? Sei que aqui não parece ser o lugar mais santo do mundo, mas, por menor que seja nossa dignidade, não é justo nos punir com a sua presença. Vá embora antes que o piru de alguém apodreça.”

Ele não deu atenção ao comentário, apenas seguiu em direção ao balcão para alugar um quarto. O dono não era humano, tratava-se d’algum tipo de ork esquisito, mas não era como nenhum que havia visto antes—era muito mais feio que a média. Talvez por isso tenha, rapidamente, conquistado sua simpatia.

“Seja bem vindo, abominação. O que trás uma alma tão podre a um lugar tão degradado? Cansou de castigar a todos com a sua presença e decidiu se enclausurar por algumas horas, não foi? Sei como é, de vez em quando faço o mesmo”, disse o ork, com um sorriso diabólico, de orelha a orelha.

“Nunca me canso de incomodar, apenas preciso de uma cama”, respondeu o sem nome num tom mecânico, monótono e perturbador.

“Pois bem, sinta-se a vontade, mas cuidado para não espantar os outros clientes”,

“Não prometo nada. Aceito qualquer quarto, basta que tenha um colchão decente. Alguma sugestão?”.

“Bem, amigo, no momento só tenho um disponível. Por sorte, ele tem colchão, mas há um buraco no teto que ainda não tive tempo de consertar. Se chover, já sabes…”.

“Não me importo, dê-me logo a chave”.

“Ora, mas que apressado!” Meteu a mão no bolso e lhe entregou a chave do quarto. Era uma chave muito velha, descascada e fétida. “Tome, fique à vontade!”.

“Curioso que já estivesse com essa chave em seus bolsos, como se já soubesse que iria precisar dela em breve”.

“Nós orks sabemos das coisas, além disso, não devia tagarelar em direção ao vento, os corvos são muito enxeridos, e nós, os orks, somos seus únicos confidentes”.

“Então que se foda”.

Pegou a chave e seguiu em direção ao seu quarto, mas antes de subir as escadas, recordou as palavras do ork. “Malditos corvos”, pensou, ” devem saber do dinheiro”, concluiu. Quando deu por si, viu que havia sido coberto por olhares gananciosos. Ladrões, mercenários, pinguços arruinados, proxenetas mal sucedidos e viciados em folha de alburgera, todos unidos com um só objetivo: dividir a barganha. Sangue e glória o aguardavam; mais sangue do que glória.

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