O Nada Nadando na Nata do Viatnã

Numa Base Secreta Iraniana, localizada na província da Puta-que-o-pariu:

-Depois de tantos anos, eis que surge no vento um antigo espectro mortuário de um passado agourento. Que queres comigo, Lindsay? Tenho pouco a barganhar.
-Ora, pois! Não seja tão ranzinza, velho amigo. Nos conhecemos há mais tempo do que ambos conseguimos nos lembrar–curiosamente, mas tempo do que eu consigo me lembrar–não há necessidade de se referir à minha pessoa desta forma tão cordeal.
-Que seja. Mas faço questão de reforçar o ponto fundamental de minhas últimas palavras: tenho pouc a barganhar.
-Se consideras a tua força pouco a barganhar, então você está muito mais velho do que qualquer um poderia imaginar. Deixe de ser fresco! Com um pouco de estímulo, você estará de volta à ativa, baixando a porrada nos mal feitores novamente do jeito que sempre fez.
-Você tem o seu supergrupo particular. Juntos, dão muito mais trabalho do que eu.
-Mas uma ajudinha extra sempre vem a calhar! Vamos, não seja tão malvado comigo, ambos sabemos que o nosso compromisso foi muito mais do que aparentava.
-Está ficando velha demais pra estes gracejos juvenis.
-É, eu sei. Mas não custa nada tentar.
-Não vou integrar a sua equipe de pardais esvoaçantes.
-Pardais esvoaçantes? É uma definição bastante sem sentido, mas soa bem. Talvez eu a utilize pra alguma outra coisa algum dia. Agora deixe de frescura, levante a sua bunda magricela deste sarcófago, arrume todos os seus pertences e prepare-se para a viagem! Vamos para a Líbia nesse final de semana, e não se trata de uma turnê publicitária.
-O que te faz pensar que…?

-Pois então, nobre Chacal, está curtindo a viagem?
-A vista é atraente…
-Eu sabia que você irira adorar! Até pedi pro Javé preparar aqueles espetinhos de frango que você tanto adorava.
-Não… não como isso já fazem dezoito anos… Acho que me esqueci qual é o gosto do frango.
-É o preço a se pagar por viver como eremita, tolinho.
-Tolinho… É difícil pra você falar como se tivesse mais de dezessete anos?
-Não sei qual é o seu problema. Desde muito vive reclamando da forma como expresso minhas opiniões? O que quer de mim? Que eu prepare uma dissertação científica sempre que estiver planejando algum gracejo? De certa forma, eu até fiz isso algumas vezes na semana passada, enquanto redigia parte do meu discurso praquela platéia de bundões da Allstar Bowling, no entanto, devo acrescentar que, num discurso, o polimento vale mais do que o conteúdo a ser transmitido.
-Gosto da forma como você relaciona informações de forma idiota sempre que fala mais do que “banana frita” ou “nuggets com molho shoyu”.
-Gosto de quando você me lembra de pratos tão deliciosamente suculentos.

Enquanto isso, no meio do mato:

Eu devo ser o único otário do batalhão que não parece nem um pouco encomodado com os horrores da guerra. Ao ver nos teus rostos a expressão abatida de quem já não tem mais esperanças de sobreviver, sinto que vale a pena sorrir um pouco mais e aproveitar todo o louvor de se estar a matar por motivo algum. Não que eu seja um psicopata; muito pelo contrário, o meu envolvimento emocional com as artes da guerra é tão intenso e calorento que afasta qualquer tipo de frieza. Sou diferente daquele homem, o Sgt. Homer. Veja só como ele olha pros cantos, sondando a área feito um maldito radar. Ele é, de fato, um caçador genuíno; não é como eu; não é só um moleque revoltado tentando descarregar a sua frustração em uma cambada de moleques maltrapilhos com guarda-sóis na cabeça. Por um momento, levo em conta a possibilidade de gerar um simples, porém duradouro conflito com o Sargento. Será mesmo que eu poderia me divertir com alguém sem alma e sem coração? Ok, talvez eue steja sendo um tanto cordial ao afirmar uma condição tão tênue ao meu adorado superior. Ele é, de todo, um demônio da floresta; um PREDADOR alienígena preparado para matar de todas as formas imagináveis.

De repente, todos começam a ficar um tanto inseguros. Pode-se ouvir, ecoando da mata, os gritos de uma tropa, decerto em apuros. Os moleques que ainda não enloqueceram tremem na base. Os pobres coitados queriam estar em casa agora, sentados em frente à tevê e comendo hambúrgueres preparados por suas respectivas progenitoras–querem voltar àquela divina condição fetal; querem ser crianças de novo, e, em seu íntimo, rogam aos céus ou qualquer outra coisa na qual acreditam para que tudo não passe de um mero mal entendido. No entanto, o destino é cruel com eles. Os gritos são em inglês–sotaque carregado, típico do interior. Alguém está sendo esfolado. Sgt. Homer não demora muito pra notar o sorriso estampado na minha cara. Ele me olha torto, com um olhar assassino. Talvez algo nele veja minha perversidade como uma ameaça desagradável à superioridade sociopata. Devo afirmar que é uma doce provocação–já nos vemos como rivais.

-Cabo Proust Orwell, um jovem francês que, insatisfeito com a sua cidania, migrou para os Estados Unidos, e com a ajuda do submundo, forjou uma nova identidade, falsamente norte-americana, tudo pra poder lutar na guerra do Viatnã. O seu sonho era ser como Chuck Norris, mas como tudo na vida tende a se desviar um tanto de sua trajetória, ainda que milimetricamente, não afetando sua chegada ao local proposto, ele acabou se tornando o Capitão América.

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