Ninguém entende os gamers

Escrito por Hamdon Nihonjin


Venho por meio desta, informar a minha indignação perante ao preconceito que a sociedade tem com os gamers.

Esses dias eu tava no metrô lá em Sampa, jogando no meu PSP o mais novo jogo da série Metal Gear Solid, apreciando ao enredo sublime do jogo, que é sobre um pirata que mata gente com um pedaço de pau lá na Bolívia, e tem uma mina que tem um nome igual ao do Peter Sellers em um filme aí. Então eis que chega uma mulher idosa, que se sentou na minha frente e começou a me olhar feio, todos os músculos do rosto dela flexionados para ela demonstrar o seu imenso desprezo pelo fato de eu estar jogando videogame. Primeiro eu deixei de lado, porque eu achei que a mulher, como devia já ter mais de oitenta anos, poderia ter algum problema nas juntas do rosto, e se eu a intimasse, acabaria por me constranger, como da vez em que achei que uma menina tava flertando sensualmente comigo e quando cheguei junto percebi que na verdade ela tinha síndrome de Down.

Mas eis que depois de algum tempo a mulher começou a bufar e cuspir no meu portátil, e aí eu fiquei muito bolado. Ainda assim eu resolvi deixar passar, porque a velha podia ter algum caso de senilidade muito amargurada, e ficasse babando por aí sem explicação. Eu temia que se eu reclamasse com a velha, ela poderia chamar a polícia e me prender, então eu deixei quieto novamente. Passado um pouco de tempo a velha simplesmente surtou, puxou o portátil da minha mão com uma violência satânica, jogou-o no chão, partindo-o em dois, e pulou violentamente sobre ele por trinta vezes, na frente de todo mundo. Eu fiquei impressionado que ninguém fez nada, aparentemente todos estavam discutindo sobre a atuação do José Wilker na nova novela. Eu quase levantei para pedir satisfações, mas achei melhor não fazer isso. Eu pensei que talvez ela tivesse algum problema de epilepsia, ao olhar luzes como as de um videogame, e teve vergonha de me pedir para desligar o portátil e achou melhor simplesmente destruí-lo.

Ainda depois disso, a velha continuou me olhando feio. Fiquei com medo e resolvi sair no próximo ponto, apesar de ainda ser muito longe da minha destinação (que era uma convenção de fãs de Final Fantasy VII (a minha fantasia de Sephiroth estava dentro da minha mochila)). Saindo do trem e começando a andar, percebi que a velha estava a me seguir, com um semblante psicótico em seu rosto. Apavorado, comecei a correr. Olhei para trás, na esperança de ter deixado a velha para trás, e qual foi minha surpresa ao ver que ela estava à poucos passos de mim! Invoquei todas as minhas forças, não muito diferente de como um personagem de Final Fantasy invoca um monstro que mata alienígenas e não tem medo de nada, e corri ainda mais rápido. Infelizmente acabei trombando num preto suado de três metros vestido com a indumentária típica de academia, que estava acompanhado de outro preto, mais baixo e mais magrinho, que lembrava o Chris Tucker dos velhos tempos. Estava caído no chão, impossibilitado de fugir da velha demoníaca. Vendo o desespero e tristeza no meu rosto, o negão deve ter sentido pena de mim e soltou um “Desculpa aê, mano”, antes de seguir o seu caminho.

E já era tarde demais – antes que eu pudesse me levantar, a velha conseguiu me alcançar e me meteu um chute na cara, quebrando-me alguns dentes e fazendo que toda minha fronte ficasse ensangüentada. Não satisfeita, ela pulou em cima de mim e me começou a me espancar como se eu fosse o próprio filho de satanás. Eu gritava desesperado por ajuda, e ninguém me escutava, pois estavam todos ouvindo a nova música da Lady Gaga em seus iPhones. A velha, não satisfeita, puxou uma lixa de unha de sua bolsa e começou a me cortar com ela, com tanta eficiência que um matador profissional usa uma faca. Eu estava perdendo meus sentidos, e sabia disso. Sabia que talvez o fim estivesse próximo pra mim. Uma lágrima solitária escorreu pelo olho. Antes de desmaiar, balbuciei uma pergunta para minha executora:

“p-por… por quê?…”

Ela olhou pra mim com desprezo. E me respondeu, mais por clemência do que por respeito, com uma voz semelhante à do Vingador de A Caverna do Dragão.

“ESSES… VIDEOGAMES… SÃO COISA DE VAGABUNDO! VAGABUNDO! OUVIU BEM? VA-GA-BUN-DO!”

Eu não consegui pensar no que responder depois disso, na verdade eu não consegui pensar em nada mais. Aliás, acho que nunca pensei em nada em toda minha vida. Minto; como o cara que faz a voz do Vingador aqui no Brasil também faz vários outros personagens, pensei em pedir pra velha imitar o Scooby-Doo ou o Seu Pirú, mas antes que pudesse, eu desmaiei.

Acordei em uma sala completamente branca. Por um segundo imaginei que tinha morrido e ido para o céu, mas percebi que era um hospital quando vi que estava recebendo soro. Demorou um pouco e entrou um sujeito, muito provavelmente um médico, com um  branco. Quando ele chegou mais perto de mim, percebi que ele tinha traços meio estranhos para um médico. Pra começar, ele tinha cara de hispânico, vindo do Paraguai ou do México, até com um bigodinho fininho pra completar. Depois, percebi que fora o avental de médico, ele estava vestido igualzinho um bicheiro, com uma camisa de cor epalhafatosa (e os três primeiros botões abertos para mostrar o peitoral suado), pochetezinha e até mesmo umas correntes de ouro falsificado em ambos os braços. Ele começou a falar comigo:

“Ah, cuenta que usted ha está acuerdo.  Escúchame con atención: por desgracia, el daño que la anciana tenía causado en su cara fue irreparable”.

Eu fiquei absolutamente em pânico quando ouvi essas palavras do médico, por que não entendi porra nenhuma e pensei ter perdido a capacidade de entender o que as pessoas dizem. Então eu me lembrei que eu nunca tive essa capacidade mesmo, e perguntei ao médico:

“Quem é você, dotô? Que fizeste comigo?”

“Mi nombre es NomuRámon del Tetsuya, Jo soy un médico nacido y formado en España. Como ya se dijo, el daño era irreparable en su cara, así la única solución fue quitar su pene”.

Não entendi porra nenhuma outra vez, e depois tive que perguntar para a enfermeira o que aconteceu de fato. Ela me disse que minha cara estava muito machucada, e eles tiveram que cortar meu pau. Ela adicionou que foi muito difícil, porque meu pau era muito pequeno. Eu perguntei para ela o que tinha a ver minha cara com o meu pau, e ela me olhou com desprezo, me xingou de filho da puta e disse que eles sabiam o que estavam fazendo. Depois eu perguntei para ela se tinha algum videogame para jogar enquanto eu estava internado, e ela me respondeu que naquele hospital não tinha espaço para coisas de vagabundo. E me mandou tomar no cu.

Para ser totalmente franco, nem liguei que retiraram meu pau, porque eu nem usava ele mesmo. Mas eu fiquei realmente triste e reflexivo quanto ao jeito que as pessoas desprezam os videogames hoje em dia. Descobri que os videogames, que são a maior fonte de cultura em todo o universo, e praticamente me formaram como ser humano, são desprezados por muitas pessoas, inclusive uma velha louca e a equipe de um hospital. Será que essas pessoas já se emocionaram jogando Metal Gear Solid? Será que essas pessoas sabem da alegria em se dar um Air Combo em The King of Fighters? Será que essas pessoas sabem da poesia que é andar pelo campo vazio de Hyrule? Será que essas pessoas sabem da alegria que é apreciar o denso enredo de Heavy Rain? Eu desconfio que não. Eles têm que entender que os gamers estão cansados de serem tratados assim, com todo esse louco preconceito! Eu não sei porque as mulheres, os negões e os boiolas têm leis para defender-lhes e os gamers não tem! Nos somos pessoas normais, como todas as outras, só que melhores! Fica aí a mensagem, para que você pense nisso.

"Nós, os gamers, somos pessoas normais como todas as outras!"

(ah, e cuidado com a velha – aparentemente ela está sendo procurada pela policia em três países e já assassinou mais de vinte pessoas, dentre elas até gente que estava fazendo cocô, e ela alegou que fazer cocô era coisa de vagabundo)

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4 Respostas to “Ninguém entende os gamers”

  1. triste… *¬*

  2. Uma das coisas mais lindas que já li na vida.

  3. Eu entendo os gamers.

  4. Eu não.

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