Picardias Homéricas e Jogo Sujo

CS, PORRA

Não queria voltar para casa, então decidira andar um pouco pela vizinhança até chegar o horário. Conhecia pouco do bairro, já que passava os finais de semana trancada em seu quarto, estudando e aplicando magias às suas mercadorias, logo manjava muito pouco das putarias. Mesmo com o tempo ruim, esse passeio seria compensador. Seguiu os trilhos do bonde para não se perder. Aos poucos, as escolas, residências , os barracos, os as vituaruas policiais, o veículo blindado de combate tático e pequenas lojas davam lugares a prédios mais altos, hotéis restaurantes, e puteiros, quase todos fechados devido a uma ordem dada diretamente por MC Pirocoptero, o chefe do tráfico na região. Lembrou-se de quando comprou seu apartamento, da merda que ele era– a descrição dizia que era próximo do centro da cidade, e estava correta.

Percebeu várias vitaturas estacionadas num lugar em especial. Curiosa, Mariana resolveu conhecer tal estabelecimento: uma pastelaria chinesa, extremamente movimentada para tal hora da manhã. Decoração austera, com painéis de carvalho, pôsteres do Bruce Lee, estantes, frutas penduradas e garrafas de caipirinha. Madeira fosca e cheia de pequeninos parasitas fedorentos acompanhados por moscas. Todos os funcionários e clientes eram asiáticos, exceto os PM’s. Isso lhe fez virar alvo das atenções. Ignorou as fardas dos cavalheiros e dirigiu-se solene ao balcão:

– Uma pastel de frango com catupiri e um caldo de cana, por favor.

Recebeu seu pedido junto de um sorriso levemente malicioso do jovem que a atendera, que não retribuiu. Só entrou na pastelaria para alimentar-se e descobrir o motivo de tamanho movimento. Deixou de lado sua irritação com a atenção não solicitada e prestou atenção em algumas conversas.

“Parece que Joaquem anda tendo problemas com suas lojas de conveniência. Já foram dois ataques…” em uma mesa. “… venha comigo, sei onde estão tem as melhores putas pra nós comer!” em outra. Alguns senhores apenas liam a folha de esportes em silêncio; outros, revistas eróticas. Prestou mais atenção em uma mesa de canto, ocupada por jovens moderninhos, cheios das frescuras, próximos à sua idade.

“Koé, galerinha! Bora lá na lan house. Os mano tão jogando CS.”

“Bora, Lucas! Vou chamar Marcinho e Birola.”

“Birola? Chama ele não, esse rapá é o maior vacilo”.

Mariana demonstrou-se ainda mais interessada na conversa dos rapazes após a menção do CS. Recordou de sua irritação com a recepcionista da pensão de minutos atrás. Bem, pau que nasce torto nunca se endireita, não dizia o ditado? Certamente não seria de tão ruim saber mais sobre seu ficante mais rico. “E belo”, algo que não admitiria tão cedo.

“Oh, Oficial Gaspar. Não estava pensando em chamá-lo, mas já que citou esse fato tão importante, tu vai no meu churrasco querendo ou não!”

A última fala do jovem fez com que o passado refinado de Mariana viesse à tona, repleto de intriga e fofoca para aqueles que lhe eram considerados amigos. Sorrisos forçados, insultos velados, falsa modéstia. Já conhecia todos os artifícios da lei. A hesitação saída dos lábios de um deles era tentadora, o mistério sempre a encantou.

– Fala aê, manolo. – Uma voz efusiva, masculina e com um leve tom de euforia invadiu o café. Reconheceu-a como a do próprio Oficial Gaspar, que acenou com a boina para o grupo de colegas e sentou no banco ao lado de Mariana.

– Bom dia para a senhorita. – Sorriu discretamente, num misto de sedução e coquetismo, algo planejado, porém de aparência espontânea. – É mesmo curioso ver uma mulher do seu tipo num beco desses. Qual é a tua?

– Oh, bom dia, Oficial. – Sorriu de maneira simpática, com intenções de atraí-lo para suas garras novamente– Olha, sendo sincera, eu nunca tinha vindo aqui nesse lugar. Estava por aí, batendo o pé, antes de retomar meus afazeres e tal. Daqui a alguns minutos voltarei à Madureira e abrirei a loja.

– Qualquer coisa, foi mal. – Lucien achava ultrajante o fato de uma mulher tão gostosa ter de trabalhar. Acreditava piamente que o funk carioca estava perdendo forças, deixando estas belas mulheres sem ter mais o que fazer. – Qualquer coisa te apresento a um amigo meu que saca tudo de música.

– Sem essa, rapaz. Eu já me ajeitei na vida, não preciso mais dessas coisas. Agora eu sou uma mulher direita.

– Boa sorte então… — o Oficial sentiu-se mal, pois seu comentário poderia ter soado ofensivo, e ele não queria arriscar perder essa tacada. Mas como não era um tipo de reflexões e pensamentos profundos, largou de ser xulé e partiu pra ofensiva – E aí, quer jantar comigo um dia desses? A propina tá em auta, vamos ter muito o que aproveitar…

– Se você arrumar um bom dia, por que não? Mas, por descarrego de conciência, vá fazendo as suas economidas. Não quero ter de pagar por você—não é esse o serviço das mulheres, Oficial.

– Pois você está certíssima! O que acha de quinta?

– Não gosto do número 5, ele me trás má sorte. Vamos sexta à noite. É uma data já consagrada em termos de encontros.

-Pois não…

Mariana terminou o seu lanche e decidiu dar no pé. Despediu-se do oficial e retomou o caminho, quando, se supetão, ouviu-se uma repentina troca de tiros entre traficantes e PM’s. A princípio, encarou o ocorrido como o tal: uma banalidade do dia-a-dia cidadão, mas depois lembrou-se que tiro mata e ficou retraida. O Oficial, alerta, levantou-se da cadeira rumo ao trabalho. Foi quando um veículo estranho parou na porta da pastelaria. De lá, sairam cinco sujeitos mal encarados, usando camisetas como toucas-ninja. Um deles, ao ver a farda de Gaspar, sacou a “gróck” e desceu a piroca balística no coitado, que nem teve tempo de reagir. Caiu lá mesmo, estirado no chão com quinze buracos de bala no corpo. Os que estavam ao redor desesperaram-se e correram em busca de cobertura. Todos, menos Mariana, que permaneceu alí, parada, encarando o cadáver, enquanto os traficantes fugiram, passando por ela, apressados. Por mais estranho que possa soar, muitos relatam que ela riu da cena, mas não é nada além de um boato. Eu prefiro acreditar na verdade: foi mesmo muito engraçado.

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