“Games podem ser arte?” e outras perguntas infantis

Palavras sem significado. Em certos tipos de escrita, em particular na crítica de arte e na crítica literária, é normal encontrar longas passagens quase totalmente sem significado. Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto, sentimental, natural, vitalidade, tal como são usadas na crítica de arte, são rigorosamente destituídas de significado, no sentido em que não só não apontam para qualquer objeto que se possa descobrir, como nem sequer o leitor espera tal coisa. Quando um crítico escreve ‘A característica marcante da obra do Sr. X é a sua vitalidade’, ao passo que outro escreve ‘O que é imediatamente óbvio na obra do Sr. X é a sua peculiar letargia’, o leitor aceita isto como uma simples diferença de opinião. Se palavras como black e white [preto e branco] estivessem envolvidas, em vez das palavras de gíria dead e living [vitalidade e letargia], o leitor veria imediatamente que a língua estava a ser usada de modo impróprio”.

Eric Arthur Blair, também conhecido como “George Orwell”

Estou em uma jornada – a de fazer com que nós, que carregamos o fardo de jogar videogames em nosso tempo livre, nos livremos de vários mitos sem-sentido que circulam o tema de jogos eletrônicos, porque assim nós poderemos discutir videogames e avaliá-los tendo como base princípios sólidos. É natural que, dada a natureza extremamente técnica do meio, alguns temas envolvidos acabam se tornando extremamente complexos, e talvez quem estiver lendo precise de um pouco de conhecimento prévio sobre o assunto para que ele entenda minha opinião em sua totalidade. Digamos que por exemplo, eu vá falar da essência dos jogos de Arcade; eu vou presumir que o leitor interessado no texto já jogou uma grande quantidade de jogos de fliperama em sua vida, e é pelo menos familiarizado com a política de funcionamento de um estabelecimento com essas máquinas. Quando eu for escrever um texto sobre minha tese quanto a ports e compilações de jogos, eu também vou supor que o leitor vai estar por dentro da definição da coisa. Quando eu abordar o assunto de seqüências de videogames, eu estou falando com gente que já jogou várias seqüências de jogos em um período de vários anos. Em outras palavras, eu escrevo sobre videogames tendo como público alvo pessoas que jogam videogame, e é assim que tem que ser. Não é possível ir fundo em um assunto de natureza técnica em beneficio de pessoas que não estão familiarizadas com o assunto.

Mas para o assunto “arte e videogames”, esse vai ser o único assunto controverso que eu vou discutir em que não é necessário conhecimento especializado do leitor. É um assunto tão simples e trivial que qualquer pessoa que seja ligeiramente inteligente que você achar no meio da rua vai entender, mesmo que o sujeito nunca tenha tocado num videogame em sua vida toda. É, basicamente, uma questão de semântica. A questão “Games podem ser arte?” não faz sentido algum de acordo com minhas recentes descobertas, que se utilizam da mais pura lógica aristotélica. E, dado o fato de que a pergunta “Games podem ser arte?” não faz sentido algum, qualquer reposta a essa pergunta igualmente não faz nenhum sentido. Em outras palavras: a pergunta não é uma pergunta e a resposta não vai ser uma resposta de fato. É como perguntar se o “céu” pode estar “triste”. Quando você faz uma pergunta usando linguagem de maneira imprópria, e a única solução para esse “problema” definido pela “pergunta” é simplesmente PARAR DE PERGUNTAR. O problema está nas palavras “game” e “arte”. Se você digitar essas palavras em diferentes dicionários online, você terá mais de uma dúzia de definições diferentes, fato que imediatamente deveria deixar você ponderando sobre a existência de uma definição geralmente aceita. A resposta rápida e crua para tal ponderação é simples: não, não existe uma definição geralmente aceita. Algumas das maiores mentes da humanidade tentaram definir o termo “jogo/game” e falharam, enquanto, por outro lado, a palavra “arte” é usada em tantos contextos diferentes que a única coisa que nós devemos entender quando alguém chama algo de arte esse alguém está simplesmente elogiando esse algo, e não conseguiu arranjar um adjetivo suficientemente eloqüente. Como “democracia” e “terrorismo”, duas outras palavras populares que ainda estão para ser claramente definidas (provavelmente nunca serão), a palavra “arte” muitas vezes é usada e um modo conscientemente desonesto. Novamente nas palavras de Orwell: “As palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realismo, justiça, têm, cada uma delas, vários sentidos diferentes, os quais não podem ser reconciliados um com o outro. No caso de uma palavra como democracia, não só não há qualquer definição com a qual todos concordem, como todos resistem à tentativa de defini-la. Há o sentimento quase universal de que ao chamar democrático a um país estamos a elogiá-lo; conseqüentemente, os defensores de todo o tipo de regimes defendem que é uma democracia, e receiam que talvez tenham de deixar de usar a palavra se ficar ligada a um significado qualquer”.

Então, voltando a pergunta “Games podem ser arte?” (que agora, para fazer algum sentido real deve ser lida como “Games podem ser bons?”), a única resposta aceitável para essa pergunta seria: “É claro, e qualquer outra coisa também pode.” Música, filmes e até comida pode ser arte (mas apenas músicas boas, filmes bons e comida boa). Livros podem ser arte (Mas apenas livros bons, e temos até um nome chique pra livros bons: literatura). Guerra pode ser arte (A arte da guerra). Sexo pode ser arte (A arte do amor). Até meu pinto pode ser arte quando eu estiver no clima, etc. A próxima pergunta, é claro, deveria ser: “Então que tipo de jogos são arte então?”, e a resposta, que já deveria estar bem óbvia, seria “Os bons”. Então Deus Ex é arte, Elite é arte, Ketsui é arte, e Super Mario Bros. 3 é arte. Septentrion é arte, Pikmin é arte e Another World também são arte. Então basicamente, isso é tudo que deve ser dito quando o assunto é videogames sendo arte. Mas porque todo a alvoroço da imprensa dos videogames em cima do tema, sendo que ele é tão trivial? A tal imprensa “especializada” repetindo tantas vezes que videogame é arte? Bem, o alvoroço acontece por que a tal imprensa “especializada” é formada por um bando de retardados incapazes que não conseguem entender esses fatos simples que eu mostrei aqui. A imprensa especializada, em busca de serem considerados pessoas “sérias” usam o adjetivo largamente de forma descaradamente desonesta e servem para que a “infância” atual (embora eu esteja quase certo que a “infância” morreu de ataque cardíaco em uma noite de verão chuvosa de 1908 em algum lugar do leste europeu) tenha uma desculpa para que as crianças percam tempo jogando videogames em vez de sair pra ver o mundo lá fora e fazer algo útil. “Sim, Joãozinho, meu anjinho, você pode continuar jogando seus jogos favoritos até depois da hora de dormir, porque games são arte. Não tem nada de errado em um homem crescido ficar a semana inteira na frente da TV sendo um encanador que pula em monstros em um reino dos cogumelos do faz-de-conta – nada mesmo. Continue, querido.” Agora eu acabei de explicar aqui o problema com a palavra “arte” usando palavras muito simples para explorar cada aspecto repulsivo do tema. Mas se você continua confuso ou fascinado por esse assunto, gostaria de informar que você não é de todo mal. Por muitos séculos, esse tipo de coisa era um tabu filosófico, até que foi resolvido Ludwig Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus, um dos mais importantes trabalhos filosóficos do século XX, publicado em Alemão originalmente em 1921. Comecemos citando algumas passagens introdutórias da peça, e depois pra parte mais contextualizada para nosso assunto. (notem: tradução livre) “O livro lida com problemas da filosofia, e mostra, acredito, a razão pela qual esses problemas existem são é o fato de que a lógica de nossa linguagem não é totalmente compreendida.

Todo o sentido do livro pode ser percebido nas seguintes palavras: tudo que pode ser dito, pode ser dito claramente, e o que nós não podemos falar com clareza, devemos deixar passar em silêncio. O objetivo do livro é propor um limite para pensar, ou talvez – não pensar, mas para a expressão de pensamentos: para que nós possamos achar esse limite, nós devemos achar os dois lados do limite do pensável (i. e. nós devíamos ser capazes de pensar o que não pode ser pensado). Assim sendo, somente utilizando a linguagem que o limite será feito, e tudo o que fica do outro lado do limite, que não pode ser expresso em palavras, é, portanto, sem-sentido.” E, as partes interessantes para o tema são as seguintes: “6.5 quando a resposta não pode ser colocada em palavras, a pergunta também não pode ser colocada em palavras. A charada não existe. Se a questão pode ser de fato vista, também é possível respondê-la. 6.51 Cepticismo não é irrefutável, mas obviamente é sem-sentido, quando tenta levantar dúvidas onde nenhuma pergunta pode ser feita. Por que dúvida só pode existir quando uma pergunta existe, uma pergunta só pode existir quando existe uma resposta, e uma resposta só pode existir onde algo pode ser dito. 6.52 Existem, de fato, coisas que não podem ser ditas por palavras. Elas se fazem manifestar. Elas são o que pode ser considerado místico. 6.53 O método correto na filosofia seria o seguinte: não falar nada além do que pode ser dito, i.e. proposições das ciências naturais – i.e. algo que nada tenha a ver com filosofia – e então, toda vez que alguém tentar falar algo metafísico, demonstrar para esse alguém que ele falhou em dar significado em certos pontos de suas proposições. Embora isso não seria satisfatório para a outra pessoa – ele não sentiria como se estivesse aprendendo filosofia – esse método seria estritamente o correto. 7. O que nós não podemos falar devemos deixar passar em silêncio” O livro de Wittgenstein revela como a linguagem funciona e o porquê de ela ser pobremente entendida, e muitas vezes usada de maneira errada, levando as pessoas a se torturarem por perguntas sem-sentido.

Assim sendo, acabo de explicar a questão sem-sentido “Games podem ser arte?” por aqui. Bem, como o Tractatus é um dos livros mais difíceis e complexos já escritos, eu não estou esperando que todos o comprem, o leiam e o entendam. O que eu espero, no entanto, é que você saia desse site livre da grande frescura que é colocar esse tema num pedestal, uma frescura que conseguiu a proeza de infectar todas as publicações que lidam com videogames. De fato, esse não é meu assunto favorito; por muito tempo, preferi mostrar uma postura meramente conservadora. Digamos que eu estava em posição de defesa. Mas essa, certamente é última vez que vou falar do assunto. Qualquer hora que abordarem o assunto, só vou passar o link desse texto. Palavras rápidas e simples que fazem sentido. Estou cauto de que, apesar desse assunto ser tão trivial pra mim (eu não tenho a menor pretensão de cometer a impossibilidade de entender o termo arte), estou certo de que, pra muitas pessoas, o assunto vai permanecer um mistério impenetrável para sempre, e minha habilidade de explicar as coisas para essas pessoas só chegam até aqui. Aliás, foi o próprio Wittgenstein que depois percebeu, “Explicações chegam ao fim uma hora”.

– Pato Donald McPato

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